27.4.13

Adrenalina

Não estou acostumado a isso. Minhas repentinas cargas de adrenalina se baseiam em emoções aleatórias provenientes de uma situação social. Amanhã, pela primeira vez, farei uma loucura.

Há duas semanas estávamos eu e mais dois amigos nos reunindo (o que me remeteu aos velhos tempos) num restaurante para aproveitar delicias gorduras culinárias. Assunto vai e assunto vem quando, de repente, alguém propõe que deveríamos começar a viver mais por nós mesmos, fazer aquilo que queremos independente de pressões sociais e posteriores julgamentos. Pensamos que, para aproveitar a vida ao máximo, extremidades implícitas seriam necessárias. Foi aí que, do nada, surgiu o assunto chave: para-quedas. Nossa. Todos os olhos se arregalaram e, como sempre, as propostas infundadas começaram (naquele esquema de "um dia deveríamos fazer isso, certo? - Claro!"). Bem, nesse momento combinamos que, num futuro muito próximo, nos arriscaríamos a isso.

O dia chegou. É amanhã. Amanhã, pela primeira vez da minha vida, saio da minha zona de conforto. Cometerei um homicídio gratuito (seja o homicídio de uma acomodação constante ou do meu próprio corpo). E se, porventura, eu sair vivo disso: passarei a perceber e agir de forma diferente em relação às minhas escolhas e a minha vida em geral.

E, ainda, espero que seja o primeiro evento de muitos que farei. Afinal, a vida é curta. Então, por favor, vivamos todos os momentos intensamente! Ou melhor, vivamos todos os momentos sem arrependimentos, tristezas e medos. A pressão estará sempre aí... Existem aquelas que não podemos escapar pois são, de certa forma, saudáveis (trabalho, educação). Contudo, há aquelas que nos limitam a um corpo automático e superficial... a essas: digo não!

Respira fundo... Esse é aquele momento que você forma um pouco da sua identidade, do seu caráter. Melhor ainda, forma aquela parte do seu caráter que não envolve outras pessoas.

Estarei pensando nessa música ao pular:

Aquilo

NOTA: minha primeira tentativa de escrever todos os meus pensamentos a partir de uma música. Ouvi, dessa primeira vez, a nova música da Florence: Over the love - repetidas vezes. E, ao ouvi-la, escrevi tudo que se passou na minha mente. Sem censura...
O blog está abandonado. É bom poder escrever isso.

http://www.youtube.com/watch?v=fSPOCVjla_4


Venho percebendo, cada vez mais, que vivemos presos a uma falsa moral que expande laços conscientes. Não apenas isso, mas uma conduta que nos é regrada pela simples existência do social. As diversas realidades são, na verdade, pequenas falácias (de maneira a serem inconsistentes). Isto é, não possuem o menor fundamento, pois se aplicam apenas a uma única realidade (do sujeito que vê o objeto). Mesmo assim, deixa de ser verdadeiro que cada um se encontra numa realidade única, cujas percepções são adequadas às experiências e pessoalidades que formam um caráter mínimo fora do senso comum.
Opa, chegamos num assunto legal: o caráter. O caráter diz respeito à personalidade. Assim, temos os traços psicológicos do individuo como sua forma de pensar, agir, interpretar e sentir. Entretanto, até QUANDO o agir e o pensar são individuais. Sejamos sinceros, o viver não é único... Todos fazemos o que fazemos pelas outras pessoas. Nada é para beneficio próprio! A tal ganância que move o capitalismo é uma falácia, por exemplo. Cada um dos elementos da massa se configura numa semelhança aos que a rondam. Tudo bem, isso não está fazendo muito sentido (mas que pensamento faz?)... Vamos adequar um pouco a minha vida.

Eu não me recordo de nenhum momento que vivi por mim. Tudo que fiz e faço é a partir de uma consciência externa que guia minha individualidade. Minha personalidade é mais variável que a cotação monetária. Sou único a partir daquilo que percebi, a partir dos diversos presentes que me foram apresentados a cada segundo de existência. Só. Não sou único porque sou especial, de forma alguma. Ninguém é. De forma geral, ninguém tem valor ou valores. Esses são construções momentâneas vantajosas para cada um em determinado momento, contexto e situação.

Meus pensamentos são tão confusos que mal consigo expressa-los em forma de texto. E esse foi sempre meu escape. Sempre sonhei pela linearidade, mas nunca a conquistei. Qualquer que seja o momento estarei irracionalizando as diversas experiências que formam um caráter temporário. Preencho buracos profundos por relações supostamente profundas. Entenda, ... essas profundezas são, novamente, FALÁCIAS! Ambas.

Estou enxergando ofuscado pela minha própria condição. Encontro erros em todos os meus atos pois tenho medo de que o caminho a ser seguido será o correto. Não para mim, para todos... ou seja, para mim, já que todos são o eu.




Quero falar um pouco sobre pessoas. Dizem que as pessoas são complicadas: é mentira. A complicação está naquilo que você forma, molda e necessita. As pessoas são rasas, e delas só extraímos normalidades. Amar, adorar, odiar... é tudo proveniente de uma necessidade de se encontrar dentro de um contexto no qual conceitos são criados afim de dar vida à vida. A vida não é vivida senão pelos conceitos que lhe dão luz, atividade e brilho. Se eu achei que amava, foi porque foi-me imposto por mim mesmo, isto é, por todos.

As pessoas vão te decepcionar se você precisar se decepcionar naquele momento. Pode parecer estranho, mas, se ficamos tristes, é porque PRECISAMOS daquilo naquele exato momento. Não existe pessoa com tamanho poder para guiar seus sentimentos, você as dá esse poder pois está simplesmente escapando daquilo que pode vir a encontrar dentro da própria consciência. É fácil escaparmos dos próprios problemas ao darmos força a outros problemas insignificantes.

Quero um pote. Nele, colocarei aquilo. Assim poderei viver.



AQUILO: Aquilo é tudo para mim no momento. É naquilo que penso, me guio, formo meus pensamentos, me esforço. É para aquilo que tento ser alguém melhor. Aquilo é meu objeto, minha realidade. Por favor, peço! Que aquilo seja, na verdade, eu mesmo. Que aquilo não seja o que penso, pois, se for... acabou.
Mano, preciso mudar minhas atitudes. Chega de personificar a felicidade.


Me vejo separado da minha identidade, do meu corpo... Há dois anos, dois anos... Há pouco mais de um ano aquilo era a única coisa que rodeava a minha cabeça. Hoje, novamente. Há dois anos vivo por aquilo... vivo sem mim, contra mim e apesar de mim. Vivo apesar de viver, vivo para pensar nos problemas que rodeiam uma consciência extremamente volátil, moldável, mentirosa e, acima de tudo, decepcionada.

Não vou mais deixar aquilo fazer isso comigo. Nunca mais me permitirei expor dessa maneira. E nunca mais deixarei que minhas fraquezas sejam usadas contra mim a cada momento de existência.




14.3.13

Muito além do Nostradamus




Considero Isaac Asimov o maior expoente de toda a história da literatura de Ficção Científica. Não só pelo rigor técnico com que tratava suas obras, mas por sua inventividade sem precedentes na criação de universos tecnológicos inimagináveis na época em que escreveu suas grandes obras.

O autor russo, nascido em 1920, além de possuir uma capacidade narrativa muito superior a qualquer parâmetro de seu tempo, era também um cientista do setor de bioquímica, tendo publicado mais de 500 trabalhos entre peças literárias e acadêmicas. Isso sem contar que era portador de um belo par de longas e invejáveis costeletas ao longo das bochechas.

O vídeo acima ressalta a visão desse verdadeiro mestre. Mais do que prever um avanço tecnológico, Asimov tinha em 1988 (o ano da entrevista) clareza das metamorfoses que a gênese do comportamento humano sofreria em um futuro não tão distante. É deslumbrante e assustador quando, por exemplo, ele cita a personalização da busca por informação, em que cada um passaria a procurar apenas assuntos de seu interesse (algo presente na cultura da internet).

Para quem se interessar por sua obra literária, meu livro favorito é 'Além da Eternidade' (1955). Outras publicações célebres são a coletânea de contos 'Sonhos de Robô' (compilada em 1986), e a cultuada trilogia 'Fundação' (1951).


Daniel Guinezi.

22.1.13

Por que viver uma vida inteira para não vive-la? Para que sejamos "pé no chão" e tenhamos a aprovação da maioria!!!!!!!!!!!!! Afinal, "pé no chão" indica a devoção ao sistema capitalista de produção, no qual a submissão ao trabalho diário para produzir riquezas é o que difere o bom do ruim. Quanto mais riquezas, mais feliz, realizado e focado é o ser. Isto é, esqueçamos as responsabilidades sociais e individuais de cada um. Sejamos levados pela consciência superficial e massiva do pensamento mundano.

Não arriscaremos!! Já que arriscar é um escape daquilo que estamos de fato destinados: trabalho, cotidiano e aprovação alheia. Porque morreremos com glória, afeto e carinho. Morreremos não sozinhos, porém com apoio e respeito. Seremos, para sempre, escravos da necessidade de SER, quando SER é, na verdade, existir. E existir é o que fazemos de melhor. Existimos da mesma maneira que uma gota existe no oceano, um pó existe no chão. Existimos como existem todas as inutilidades alheias. Ser, amigos, deveria ser muito mais do que existir. Ser deveria remeter ao autoconhecimento, às limitações e forças, às vontades de fazer o que bem entender.

Ser é individual, não serei quem querem que eu seja. Serei aquilo que sou devido a tudo que passei. Já sou quem me moldaram para ser, mas, minhas atitudes, serão aquelas cuja minha mente produzir.

Viver é um risco, considerando que não sabemos até quando dura. Por isso, façamos desse risco uma lição: não viva esperando uma morte inevitável. Viva para ser aquilo que quer ser, sem ser aquilo que querem que sejas.

A pressão social não é nada mais do que as forças externas tentando moldar sua consciência (p=f/a). Portanto, quanto maior sua consciência, menor será a pressão sobre ela!

Se quiser lutar, lute! Se quiser escalar, escale!!
Muito melhores são as pessoas que fazem algo do que aquelas que se deixam levar.
Muito piores são as direitas que criticam as esquerdas, e vice-versa.

Muito pior é, nesse mundo, existirem esquerdas e direitas. Afinal, estão todos conectados pelo pensamento de felicidade ou dinheiro, amor ou saúde. Somos todos nós mesmos e seremos as reciclagens daquilo que produzimos conforme as gerações.

O mérito é raso quando não temos oportunidades. Como alguém pode se sentir melhor que o outro, por conquistar aquilo que já estava conquistado a muito tempo. Mérito é uma desculpa para a não mudança.

Pé no chão, caro, é ter clareza daquilo que está à sua frente. E seguir seu próprio caminho conforme seus próprios passos!

2.1.13

Mudanças


Venho dizer que, a cada dia que passa, vejo que as pessoas são mais diferentes do que eu imaginava.
Para mim eram todos iguais e suas diferenças de baseavam em pequenos traços de sociedade que lhes foram impostos. Mas não, as pessoas são, de fato, diferentes. Pelo menos é isso que espero, pois, senão, serei condenado a viver sob julgamentos constantes, tristezas profundas e dúvidas insaciáveis.

Até 2012 escolhia acreditar que ninguém mudava. Escolhia acreditar que eu era a vitima e, todos os outros, vilões ingênuos. Escolhia levar certas coisas ao total extremo e outras à margem. Escolhia desacreditar em valores que nunca analisei e, porém, acreditar na moral do contexto em que me inseri. Escolhia me manter na profunda ignorância do egoísmo, justificando-o com estereótipos [in] conscientes.
Escolhi, acima de tudo, fazer dos outros peças do meu próprio quebra-cabeça. Mas acabei por deixar algumas peças escaparem, de modo a fazer buracos. Escolhi valorizar muito em detrimento do pouco, e pouco aquilo que poderia ser muito.

Aquela história da “falsa liberdade” sob a qual estamos sujeitos não cabe aqui nem ali. Estamos livres para fazer nossas próprias escolhas. A liberdade não é democrática e nem igual para todos, mas não deixa de sê-la. Isto é, cada um, sob suas próprias condições, sejam elas impostas ou não, possui a liberdade para se livrar de tudo. Acima de tudo a liberdade é a morte, o que apenas incita o seu totalitarismo.
Existe a completa alienação? Um dia já pensei que a ignorância era pior do que o conhecimento. Hoje... gostaria de ser alheio a tudo, apático e impassível. Gostaria de não ligar tanto e de viver numa realidade fechada, única e ingênua. Talvez eu já viva aqui. Talvez quanto maior a ignorância, maiores são os rancores. Talvez.

O autoconhecimento é o que eu mais procuro.

29.12.12

Texto primeiro.


(D.T.G)


"Fui para os bosques viver de livre vontade,

Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!"


Thoreau, Henry David

É no mínimo curioso que minha publicação primogênita possua um teor próximo da auto-ajuda. Não só por ser este um gênero literário que pessoalmente repudio (ainda que respeite), mas pelo fato de que tentar propagar lições enlatadas simplesmente vai contra meu comportamento usual.  O fato é, intrépido leitor que aqui se arrisca, não procuro ensinar nada a ninguém aqui que não seja a mim mesmo. E não só pelos motivos anteriormente citados, mas também por que seria assaz tolo investir meu precioso tempo em lições rasas que não possuirão mais do que meia dúzia de leitores. Se este artigo obstina fazer algum sentido, deve ser escrito para mim mesmo, e para mais ninguém. Do contrário, está fadado a ser frívolo e pouco sincero. 
Se você continua me acompanhando mesmo depois da minha breve introdução, é por que de alguma forma se interessa por aquilo que quero externar, mesmo não visando a você, leitor. Não o culpo. Seja por curiosidade, seja por algum tipo de interesse obscuro (o que não exclui a curiosidade), conhecer um pouco do que o outro pensa consigo pode sim ser enriquecedor, mesmo que as intenções do escritor estejam longe de serem nobres. 

Desculpe se fui enfadonho com esta ladainha toda. Considerei importante pensar um pouco no ato de escrever antes de iniciar qualquer tipo de pseudo-reflexão aqui neste espaço.

Mas o que é mesmo que eu preciso tanto expressar? 

Ocorre que, recentemente, eu descobri que vou morrer, e isto incitou em mim a necessidade por uma expressão que fugisse um pouco do meu próprio auditório social. Sei que pensar nisso nada tem de inovador, mas se eu nunca me mobilizei para tal reflexão, então a discussão é inédita, 100% original (para quem estou me reportando mesmo, se há pouco aleguei que o texto era para mim mesmo? - indício de hipocrisia). Prosseguindo com o dilema da morte, o fato é que, durante alguns instantes do meu dia, em meio ao bico de estoquista que exerço num shopping Center neste ano (2012), saí daquela ilusão em que todos vivemos de que somos imortais. Foi apenas um lapso rápido, já estou iludido novamente. Mas o que senti naquele momento talvez tenha alguma força para alterar minhas decisões, e isso é de importância primordial! 

Indo a fundo nesse pensamento, acabei mergulhando em algumas obras que me auxiliassem a entender essa confusão momentânea. A arte costuma ser o reduto onde sou capaz de compreender algumas sensações minhas, e mesmo organizar isso em seja lá o que for (imagens, palavras, sons...). Minto. Acho que compreender é limitado. O que a arte me proporciona, talvez, seja algum tipo de clarevidência daquilo que pensei. É mais do que um entendimento, é quase como que um artifício pelo qual eu volto a sentir (e aí sim, compreendo) aquilo que me instigou, e me sinto compartilhando isso com personagens fictícias. Acho que agora fui mais preciso na minha relação com a arte, sem contar que se aplica exatamente ao uso que fiz dela nos meus pensamentos sobre a morte. 

A arte sanou minha inquietação? Naturalmente que não. Ela não está aí para servir de consolo, e muito menos para remediar quaisquer dores pessoais. Pelo contrário, a arte por vezes coloca o dedo em tais feridas e aprofunda seus contornos. O que consegui então foi pensar ainda mais. Mas o pensar não é nada sem o sentir, e é por isso que uma obra de arte é tão poderosa: ela, diferentemente de um livro didático, nos coloca questões e inflama reflexões a partir de sensações projetadas em nós mesmos. É como se eu pensasse a efemeridade da vida e, ao mesmo, fosse forçado a vislumbrar seus efeitos. É mágico. 

Dentre as obras com as quais tive contato (e coloco o poema de Thoreau como protagonista nisso), foi recorrente a tentativa de induzir o espectador a uma nova postura ante a vida, de modo que ele tentasse tornar cada dia algo 'extraordinário'. O fato da vida acabar, alegam as obras, deve servir como estopim para que o homem comum passe a conduzir seus dias de modo mais glorioso, fazendo aquilo que parte dele, e que ele realmente quer. Eu, jovem de 18 anos, facilmente impressionável, naturalmente me encantei. E permaneço até agora encantado com a possibilidade de enxergar a vida não como um amontoado de obrigações, mas sim como a oportunidade que cada um tem de aproveitar e fazer aquilo que exerce fascinação. Amar! Nada obstante, um ponto recorrente desse pensamento me incomoda (não de modo negativo, mas apenas me leva a pensar um pouco mais): a questão do trabalho. 

É interessante observar o quão facilmente se atrela a noção de tornar a vida 'extraordinária' a trabalhar com algo pessoalmente fascinante. Eu, particularmente, sou um paladino do trabalho. Não que me orgulhe disto, mas eu simplesmente acho que o trabalho tem um papel de protagonismo inegável na vida e nas realizações pessoais, e alguém que exerça uma profissão com paixão e prazer é capaz sim de fazer da vida algo extraordinário. Entretanto, o que procuro expressar aqui contra tal linha de pensamento é que, mesmo sendo este grande defensor do trabalho que sou, restringir a capacidade de viver gloriosamente a trabalhar em algo que gosta é limitado e limitador. Não vejo como pouco nobre trabalhar em algo estritamente para sobreviver. Afinal, o trabalho é, na sociedade em que vivemos, uma obrigação. Se trabalhar não é aquilo que inflama o indivíduo, que continue trabalhando, mas que ache sua grandiosidade individual fora dali. Meu ponto é: faça da sua vida algo extraordinário, mesmo que isso não seja possível dentro do tão valorizado trabalho (o tom de auto ajuda pesou no último período. Perdão leitor). 
Citando um diálogo de uma das mais belas histórias em quadrinhos que li nos últimos tempos: 
 - E no que você trabalha? 
- Por que essa pergunta? 
 - Sei lá. Acabamos de nos conhecer queria saber mais de você. Quem você é, o que quer... seus sonhos. 
- Meu emprego não vai te dizer quem eu sou. Muito menos o que eu quero (...) todo mundo tem que trabalhar, né? Eu ajudo a minha mãe. Bom, eu sou que nem todo mundo aqui que tem que fazer alguma coisa pra sobreviver. Mas isso não vai te dizer quem essas pessoas são de verdade. 

Fábio Moon e Gabriel Bá, Daytripper

O diálogo da HQ esclarece bem meu ponto quanto ao trabalho, e a forma como a realização pessoal costuma estar intrinsecamente ligada a ele. Novamente, não estou negando a enorme capacidade de um trabalho exercido com paixão dar sentido a existência. A essência da vida pode ser tirada dele também. Mas se o trabalho é um solo fértil para fazer crescerem paixões, ele é apenas um dentre tantos outros lugares onde o indivíduo pode semear uma vida brilhante. 

É com estes pensamentos que me despeço. Aos leitores corajosos, que investiram um pouco da sua vida lendo estas linhas, meu muito obrigado. Acabei falando sobre mais temas do que eu esperava quando comecei a escrever, e menos sobre minha reflexão central (que é o dilema da morte)...provavelmente um reflexo do meu retorno à ilusão de que sou eterno. E eu não sou mesmo?

Para quem tem interesse, algumas das obras pelas quais eu explorei a questão: 
Filmes: Sociedade dos Poetas Mortos, Rocky Balboa, Sim senhor, 21 gramas, Habemus Papam. 
(Leitores logo perceberão o quão eclético sou para cinema. De fato, considero que podemos extrair muito de todo o tipo de obra, da mais lírica, até a mais mundana)
HQ: Daytripper (Recomendo com toda a força possível)
Música: Imagine, Operário em Construção, Epitáfio
Poesia: a poética da fase ecologista de Thoureau; poemas românticos do Lorde Byron. 

                                                                                      - Daniel Torres Guinezi
  

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12.10.12

P!nk + Pina

P!nk e Pina Bausch. O que as duas possuem em comum? Até semana passada diria que praticamente nada. Contudo, nesta quarta, P!nk divulgou o videoclipe de "Try", segunda música de trabalho de seu novo álbum "The Truth About Love", e mostrou que a semelhança entre elas é muito maior que o imaginado.
P!nk sempre destacou-se das demais cantoras do cenário musical. Em carreira solo desde 1999, construiu uma imagem de garota revoltada e transgressora, tecendo críticas ferrenhas à sociedade e à política em suas letras, como em "Stupid Girls" e "Dear Mr. President". Sua figura representou uma ruptura com o padrão comercial: mulheres sensuais cantando sobre festejar e viver a vida sem limites.


O clipe "Try" mostrou um lado de P!nk nunca antes visto, surpreendendo a todos com uma coregrafia excepcional de dança contemporânea, executada ao lado do bailarino Colt Prattes. P!nk nunca havia demonstrado saber dançar. Os movimentos carregam uma enorme força, transmitindo, ao mesmo tempo, violência e sedução. Trata-se de uma metáfora sobre os conflitos de um casal, tendo como palco um lar que está ruindo e dando lugar a um deserto. A produção é belíssima. As acrobacias impressionam e P!nk não é principiante nesse quesito: desde pequena pratica ginástica e seu sonho de infância era ser uma ginasta profissional. 



Ao analisar os conceitos por trás da dança contemporânea, torna-se compreensível que P!nk a pratique, já que os princípios e valores dessa expressão artística em muito conversam os da cantora. A dança contemporânea  surgiu na década de 1960 como ruptura com o modelo clássico, uma forma de protesto às convenções. Aos poucos foi se estabelecendo e ganhando respeito no mundo artístico. Os sentimentos, as ideias, as emoções são valores que prevalecem sobre a estética.



Pina Bausch foi um expoente e ícone da dança contemporânea. A bailarina e coreógrafa alemã criou espetáculos que arrebataram o público por sua força, beleza e, muitas vezes, tragicidade. A interação entre homem e mulher foi um tema extremamente explorado em seus trabalhos (seria uma inspiração para o clipe de "Try"?). O espetáculo "Café Müller" teve um trecho incluído no filme "Fale com Ela", de Pedro Almodóvar, atraindo grande atenção para o trabalho de Pina. Neste ano, um documentário sensacional sobre a sua vida, dirigido por Wim Wenders, concorreu ao Oscar da categoria. Assistir às coreografias e à entrega total dos bailarinos para realizá-las é hipnotizante.




É extremamente gratificante, portanto, ver P!nk trazendo a dança contemporânea para o centro da indústria musical atual. Em meio à tantos videoclipes genéricos e vulgares, "Try" destaca-se pela ousadia e beleza. É uma obra de arte. Certamente P!nk e Pina possuem mais do que apenas o "p", o "i" e o "n" em comum.


                                                                                                          - Matheus