(D.T.G)
"Fui para os bosques viver de livre vontade,
Para sugar todo o tutano da vida…
Para aniquilar tudo o que não era vida,
E para, quando morrer, não descobrir que não vivi!"
Thoreau, Henry David
É no mínimo curioso que minha publicação primogênita possua um teor próximo da auto-ajuda. Não só por ser este um gênero literário que pessoalmente repudio (ainda que respeite), mas pelo fato de que tentar propagar lições enlatadas simplesmente vai contra meu comportamento usual. O fato é, intrépido leitor que aqui se arrisca, não procuro ensinar nada a ninguém aqui que não seja a mim mesmo. E não só pelos motivos anteriormente citados, mas também por que seria assaz tolo investir meu precioso tempo em lições rasas que não possuirão mais do que meia dúzia de leitores. Se este artigo obstina fazer algum sentido, deve ser escrito para mim mesmo, e para mais ninguém. Do contrário, está fadado a ser frívolo e pouco sincero.
Se você continua me acompanhando mesmo depois da minha breve introdução, é por que de alguma forma se interessa por aquilo que quero externar, mesmo não visando a você, leitor. Não o culpo. Seja por curiosidade, seja por algum tipo de interesse obscuro (o que não exclui a curiosidade), conhecer um pouco do que o outro pensa consigo pode sim ser enriquecedor, mesmo que as intenções do escritor estejam longe de serem nobres.
Desculpe se fui enfadonho com esta ladainha toda. Considerei importante pensar um pouco no ato de escrever antes de iniciar qualquer tipo de pseudo-reflexão aqui neste espaço.
Mas o que é mesmo que eu preciso tanto expressar?
Ocorre que, recentemente, eu descobri que vou morrer, e isto incitou em mim a necessidade por uma expressão que fugisse um pouco do meu próprio auditório social. Sei que pensar nisso nada tem de inovador, mas se eu nunca me mobilizei para tal reflexão, então a discussão é inédita, 100% original (para quem estou me reportando mesmo, se há pouco aleguei que o texto era para mim mesmo? - indício de hipocrisia). Prosseguindo com o dilema da morte, o fato é que, durante alguns instantes do meu dia, em meio ao bico de estoquista que exerço num shopping Center neste ano (2012), saí daquela ilusão em que todos vivemos de que somos imortais. Foi apenas um lapso rápido, já estou iludido novamente. Mas o que senti naquele momento talvez tenha alguma força para alterar minhas decisões, e isso é de importância primordial!
Indo a fundo nesse pensamento, acabei mergulhando em algumas obras que me auxiliassem a entender essa confusão momentânea. A arte costuma ser o reduto onde sou capaz de compreender algumas sensações minhas, e mesmo organizar isso em seja lá o que for (imagens, palavras, sons...). Minto. Acho que compreender é limitado. O que a arte me proporciona, talvez, seja algum tipo de clarevidência daquilo que pensei. É mais do que um entendimento, é quase como que um artifício pelo qual eu volto a sentir (e aí sim, compreendo) aquilo que me instigou, e me sinto compartilhando isso com personagens fictícias. Acho que agora fui mais preciso na minha relação com a arte, sem contar que se aplica exatamente ao uso que fiz dela nos meus pensamentos sobre a morte.
A arte sanou minha inquietação? Naturalmente que não. Ela não está aí para servir de consolo, e muito menos para remediar quaisquer dores pessoais. Pelo contrário, a arte por vezes coloca o dedo em tais feridas e aprofunda seus contornos. O que consegui então foi pensar ainda mais. Mas o pensar não é nada sem o sentir, e é por isso que uma obra de arte é tão poderosa: ela, diferentemente de um livro didático, nos coloca questões e inflama reflexões a partir de sensações projetadas em nós mesmos. É como se eu pensasse a efemeridade da vida e, ao mesmo, fosse forçado a vislumbrar seus efeitos. É mágico.
Dentre as obras com as quais tive contato (e coloco o poema de Thoreau como protagonista nisso), foi recorrente a tentativa de induzir o espectador a uma nova postura ante a vida, de modo que ele tentasse tornar cada dia algo 'extraordinário'. O fato da vida acabar, alegam as obras, deve servir como estopim para que o homem comum passe a conduzir seus dias de modo mais glorioso, fazendo aquilo que parte dele, e que ele realmente quer. Eu, jovem de 18 anos, facilmente impressionável, naturalmente me encantei. E permaneço até agora encantado com a possibilidade de enxergar a vida não como um amontoado de obrigações, mas sim como a oportunidade que cada um tem de aproveitar e fazer aquilo que exerce fascinação. Amar! Nada obstante, um ponto recorrente desse pensamento me incomoda (não de modo negativo, mas apenas me leva a pensar um pouco mais): a questão do trabalho.
É interessante observar o quão facilmente se atrela a noção de tornar a vida 'extraordinária' a trabalhar com algo pessoalmente fascinante. Eu, particularmente, sou um paladino do trabalho. Não que me orgulhe disto, mas eu simplesmente acho que o trabalho tem um papel de protagonismo inegável na vida e nas realizações pessoais, e alguém que exerça uma profissão com paixão e prazer é capaz sim de fazer da vida algo extraordinário. Entretanto, o que procuro expressar aqui contra tal linha de pensamento é que, mesmo sendo este grande defensor do trabalho que sou, restringir a capacidade de viver gloriosamente a trabalhar em algo que gosta é limitado e limitador. Não vejo como pouco nobre trabalhar em algo estritamente para sobreviver. Afinal, o trabalho é, na sociedade em que vivemos, uma obrigação. Se trabalhar não é aquilo que inflama o indivíduo, que continue trabalhando, mas que ache sua grandiosidade individual fora dali. Meu ponto é: faça da sua vida algo extraordinário, mesmo que isso não seja possível dentro do tão valorizado trabalho (o tom de auto ajuda pesou no último período. Perdão leitor).
Citando um diálogo de uma das mais belas histórias em quadrinhos que li nos últimos tempos:
- E no que você trabalha?
- Por que essa pergunta?
- Sei lá. Acabamos de nos conhecer queria saber mais de você. Quem você é, o que quer... seus sonhos.
- Meu emprego não vai te dizer quem eu sou. Muito menos o que eu quero (...) todo mundo tem que trabalhar, né? Eu ajudo a minha mãe. Bom, eu sou que nem todo mundo aqui que tem que fazer alguma coisa pra sobreviver. Mas isso não vai te dizer quem essas pessoas são de verdade.
Fábio Moon e Gabriel Bá, Daytripper
O diálogo da HQ esclarece bem meu ponto quanto ao trabalho, e a forma como a realização pessoal costuma estar intrinsecamente ligada a ele. Novamente, não estou negando a enorme capacidade de um trabalho exercido com paixão dar sentido a existência. A essência da vida pode ser tirada dele também. Mas se o trabalho é um solo fértil para fazer crescerem paixões, ele é apenas um dentre tantos outros lugares onde o indivíduo pode semear uma vida brilhante.
É com estes pensamentos que me despeço. Aos leitores corajosos, que investiram um pouco da sua vida lendo estas linhas, meu muito obrigado. Acabei falando sobre mais temas do que eu esperava quando comecei a escrever, e menos sobre minha reflexão central (que é o dilema da morte)...provavelmente um reflexo do meu retorno à ilusão de que sou eterno. E eu não sou mesmo?
Para quem tem interesse, algumas das obras pelas quais eu explorei a questão:
Filmes: Sociedade dos Poetas Mortos, Rocky Balboa, Sim senhor, 21 gramas, Habemus Papam.
(Leitores logo perceberão o quão eclético sou para cinema. De fato, considero que podemos extrair muito de todo o tipo de obra, da mais lírica, até a mais mundana)
HQ: Daytripper (Recomendo com toda a força possível)
Música: Imagine, Operário em Construção, Epitáfio
Poesia: a poética da fase ecologista de Thoureau; poemas românticos do Lorde Byron.
- Daniel Torres Guinezi
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